Isto é um exercício dramático. Vamos pegar em discussões, zangas e arrufos que já tivemos e escrevê-los de memória. Depois vamos editá-los. Ou enfeitamos, ou apertamos. Em princípio, pode facilitar a escrita.
Pode ser doloroso. Às vezes é estranho e até cómico ver como discutimos, visto de fora. Este exercício não é assim tão diferente de fazer psicodrama em terapia, em que tentas recriar as tuas discussões para ganhar perspetiva sobre o teu lado e o lado do [ahem…] ‘adversário’.
Sou péssimo a perceber teoria da escrita: quando o Aristóteles usa expressões como ‘unidade de espaço e tempo’ e ‘clímax’, e o Freytag desenha o triângulo dele, perco-me. Normalmente há maneiras mais simples (mais burras?) de dizer as coisas. Acho que o Aristóteles só queria dizer: nada de flashbacks, mantém tudo no mesmo sítio, não baralhes as pessoas. KISS: keep it simple, stupid (aprendi isto com um Navy Seal apaixonado pela pintura ‘plein-air’ à Seurat, quando me falou da sua paleta de 4 cores). Há uns anos li uma frase do David Mamet, já não me lembro onde, se foi na masterclass dele, se no livro Bambi vs. Godzilla, se noutra parvoíce qualquer com que passo o tempo a procrastinar… mas ele diz que não há nada mais no conceito às vezes nebuloso de ‘tensão dramática’ do que ‘São só duas pessoas a discutir!’. Dito assim, é fácil! Duas pessoas a discutir! Sei o que isso é!
Vamos buscar à nossa memória, para que a fonte do conteúdo seja automática e não fiquemos com a síndrome da página em branco. O meu amigo Daniel, que me é muito querido, sempre foi cético em relação à tradição da autoficção. Diz ele: ‘a ficção é sobre imaginação, sobre empatia pelos outros, não sobre solipsismo narcisista.’ Ele odeia o preachiness moralista de quem diz ‘não escrevas sobre pessoas diferentes de ti’.
Concordo totalmente com ele quanto à imaginação e à empatia, mas também encontro imenso valor em escavar a minha autobiografia. A minha companheira, amor da minha vida e talentosíssima escritora/realizadora/editora/produtora Margarida critica sempre o meu trabalho não autobiográfico como ‘artificial, falso, não se acredita’. Ela já me disse: ‘porque é que estás a escrever sobre jogadores de futebol, tu não percebes nada de futebol!’
E eu concordo com ela. Há algo de mágico e profundo no ‘enxerto’ autobiográfico, nas montanhas, falésias e rios de memória, ao copiar, ou inventar por cima de eventos reais. Se fores suficientemente detalhado, suficientemente preciso nas palavras e no ritmo, cada palavra parece conter um icebergue de subtexto. Porque nós, humanos, somos muito inteligentes e comunicamos muitas vezes de formas não-verbais, e isso é difícil de inventar numa página vazia.
Portanto, se estiveres disposto a experimentar… bora lá.
Escolhe o tempo para brainstorming vs. escrita. Podes pausar o timer a qualquer momento.